‘ESTAMOS VIVENDO UM PÂNICO COLETIVO’: O RELATO DOS BRASILEIROS EM FUGA DO FURACÃO IRMA

“É assustador.” Assim o advogado Renato Seitenfus, de 37 anos, define sua situação, após decidir deixar a cidade de Tampa, na Flórida, onde mora há sete anos com o marido, Fabiano Laux, para fugir da rota do furacão Irma.

A agência espacial americana, a Nasa, diz que esse fenômeno é o maior do tipo na última década. Depois de causar devastação no Caribe, o ciclone tropical está se encaminhando para a costa leste dos Estados Unidos e pode atingir o sul do país neste final de semana.

Seguindo a ordem de evacuação emitida por autoridades – para mais de meio milhão de pessoas -, o casal brasileiro decidiu ir para Nova Orleans, 1,1 mil km ao norte.Eles contam que, desde o início da semana, há um “pânico coletivo” gerado pelo furacão. Os estoques de água e alguns alimentos enlatados acabaram nos supermercados, assim como a gasolina em diversos postos. Muitas pessoas compraram sacos de areia para colocar nas portas de casa para o caso de haver inundações.

“As pessoas estão com medo e muito apreensivas. Até ficaram mais agressivas no trânsito. Três colegas do trabalho compraram munição para estocar por medo de haver saques e invasões. Ninguém sabe o que vai acontecer”, conta Renato.

A empresa em que trabalha dispensou os funcionários, e a faculdade onde Fabiano, de 37 anos, cursa uma pós-graduação, suspendeu as aulas. Os dois ainda estavam em dúvida se deixariam Tampa até a manhã da última quarta-feira, mas decidiram partir “enquanto ainda podem”.

Eles chegaram a pesquisar passagens de avião, mas os sites das empresas estavam congestionados, quase inacessíveis. Quando conseguiam entrar, encontravam pouquíssimos assentos disponíveis – e a preços quatro ou cinco vezes acima do normal.

Decidiram então enfrentar dez horas de viagem de carro. Na estrada, se depararam com a cobrança de pedágios suspensa por ordem do governo estadual para facilitar a evacuação, e a passagem de helicópteros de grande porte nos céus, do tipo usado em resgates, a caminho da costa.

“Já enfrentamos um alerta de furacão antes, mas não houve tanto alarde. Desta vez, recomendaram sair o quanto antes. Estamos fazendo o que pediram e tentando manter a calma”, diz Fabiano.

O casal Mauricio e Paula Sobral, de 51 e 47 anos, respectivamente, tomou a mesma decisão. Pegaram a estrada no início da madrugada de quarta-feira, mas não conseguiram evitar os engarrafamentos até Atlanta, onde têm reserva em um hotel até a próxima terça-feira. A viagem de 1 mil km deveria levar 9 horas – demorou 15.

No trajeto, perceberam o grau de preparo dos americanos para situações assim, com placas indicado a rota de evacuação e indicando uma estação de rádio pela qual estavam sendo transmitidas informações. Um dos carros com que cruzaram carregava quatro galões de gasolina extra para o caso de haver uma emergência.

Eles moram há três anos em Weston, cidade próxima a Miami, na Flórida, com os dois filhos, e nunca haviam passado por uma experiência igual. Chegaram a se preparar no ano passado para a chegada do furacão Matthew, que acabou desviando na última hora.

Na época, decidiram ficar. Desta vez, optaram por proteger sua casa com placas de aço e partir. “A diferença é que esse é um dos maiores furacões que já cruzou o Atlântico. Não tinha por que ficar”, diz Mauricio.

O Irma já é furacão de categoria 5, o máximo na escala de potência. Um fenômeno assim tem ventos que superam 252 km/h, similar à velocidade de alguns trens de alta velocidade. Segundo a Nasa, os ventos do Irma já ultrapassam 280 km/h.

Por causa disso, a empresa em que Paula trabalha não terá expediente nos próximos dias, assim como a escola de seu filho Pedro, de 14 anos. Já Mauricio teve de adiar a inauguração de seu empório de produtos brasileiros, marcado para a próxima semana, sem previsão de quando poderá fazer isso.

“Interrompi o treinamento dos funcionários. Protegi as vitrines e portas. Não tive escolha. Os fornecedores pararam de entregar. Tudo parou”, conta ele.

“A vida está em suspenso”, diz Paula. “A angústia e ansiedade são muito grandes.

Você precisa tomar uma série de decisões que nunca teve de tomar antes e não sabe se o que está fazendo é certo. Tem de seguir seu instinto. Fizemos o mais prudente, mas estamos indo sem saber quando vamos conseguir voltar.”

Várias pessoas estão passando pela mesma situação. Enquanto viajam, Paula e Maurício ficam de olho no grupo no WhastApp por onde trocam informações sobre o progresso do Irma com outros 200 brasileiros em fuga.

 

fonte: Portal G1

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